FUMO DO DIA : PF indicia deputado federal e cita relação suspeita com família de Safadão



Uma investigação da PF (Polícia Federal) expôs uma relação próxima e considerada suspeita entre o deputado federal Junior Mano (PSB-CE) e a família do cantor Wesley Safadão.

O relatório final do inquérito, enviado ao STF (Supremo Tribunal Federal), aponta para um "entranhamento operacional" envolvendo pedidos de patrocínio suspeitos, uso de aeronaves para fins eleitorais e até a presença de familiares do cantor em endereços do parlamentar.

O deputado federal é pré-candidato ao Senado no Ceará com apoio do senador Cid Gomes (PSB-CE) para integrar a chapa da reeleição do governador Elmano de Freitas (PT).

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O inquérito evidencia que o relacionamento próximo entre o parlamentar e os familiares de Wesley Safadão não se limitou a fotografias, agendas e cordialidade: ele transbordou para a gestão concreta de interesses.
Relatório da PF

Apesar de citados, Safadão e familiares não foram indiciados pela PF. Já o deputado é citado como chefe de uma organização criminosa e foi indicado por quatro crimes. Junior diz que não cometeu irregularidade e reclama do vazamento de informações com "fins políticos" (veja nota abaixo).

Pedido de "patrocínio"

Um dos pontos centrais da investigação é o diálogo interceptado entre Junior Mano e Wesley Safadão. Em 2024, o deputado solicitou diretamente ao cantor um aporte financeiro para um evento em Nova Russas, cidade administrada por sua esposa, Giordanna Mano (PRD).

"Wesley responde que tratará do assunto no dia seguinte, por estar saindo para uma oração. A construção do texto capturado indica trato direto e sem intermediários", cita o relatório.



A Polícia Federal destaca que o pedido de "patrocínio" ocorreu após o cantor ser contratado pela prefeituras de Nova Russas (por R$ 900 mil) e pela de Morada Nova (R$ 1 milhão).

Para os investigadores, o contexto permite inferir que se trata de uma "solicitação camuflada de propina, com devolução de parte do valor contratado".

A investigação também revelou intimidade de Junior Mano com Safadão, a ponto dele acionar o Ministério dos Portos e Aeroportos para pedir urgência na liberação de duas aeronaves do cantor para uso eleitoral.

O parlamentar justificou na mensagem enviada ao ministro Silvio Costa Filho (Republicanos) que precisava dos jatinhos com urgência para fazer campanhas pelo interior em 2024: "não aguento mais carro...rsrs".

"Confusão Patrimonial"

A proximidade seria ainda mais evidente com Yvens Watila, irmão e empresário de Safadão. Durante a deflagração da Operação Underhand em julho de 2024, Watila foi encontrado pela PF "dentro do apartamento funcional de Junior Mano, em Brasília".

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Além disso, um veículo de alto padrão registrado em nome da empresa de Watila foi localizado na vaga privativa do prédio residencial do parlamentar em Fortaleza.

Watila também atuaria na articulação política. Prints retratam a interlocução com o parlamentar e mostram Yvens Watila com papel ativo em pautas políticas. Nos diálogos interceptados, há consulta sobre pesquisas eleitorais e à indicação de nomes a serem "articulados".

Irmão prefeito

Outro irmão do cantor, o prefeito de Araicoiaba Wellington Silva de Oliveira, conhecido como Edim (PP), também aparece em diálogos em que assessores de Junior Mano tratam da liberação de recursos para o município.

Edim foi afastado do cargo pela presidência da Câmara de Vereadores no último dia 23 por causa de uma condenação criminal por estelionato em que não cabe mais recurso.

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Uma das conversas que chamou a atenção da PF é uma mensagem enviada por um assessor direto de Junior Mano em que ele fala da emissão de um LAE (Licenciamento Ambiental Especial) para obra na cidade e menciona "10k [mil] asfalto sede Aracoiaba".

Na mensagem, ele pontua a necessidade de "ajeitar um negócio pro rapaz". "A expressão que, no fluxo da investigação, guarda sentido de acerto informal associado à liberação de recursos", diz a PF.

O que concluiu a PF

O relatório da PF conclui que havia uma organização criminosa comandada por duas pessoas: Junior Mano e Carlos Alberto Queiroz Pereira, o Bebeto do Choró.

Bebeto foi eleito prefeito de Choró pelo PSB, mas nem chegou a assumir o cargo e foi cassado pela Justiça eleitoral em abril. Ele está foragido desde o dia 5 dezembro de 2024 e precisou ser diplomado por procuração, enviando o seu filho para a solenidade. Entretanto, acabou impedido, por decisão judicial, de tomar posse em 1º de janeiro de 2025.

O deputado Junior Mano é apontado como o pilar institucional do grupo, e as denúncias contra ele incluem:


  • Negociação de Emendas: Ele atuaria na liberação de emendas parlamentares mediante a cobrança de "retorno" financeiro.
  • Interferência na Caixa: Uso de influência para nomear aliados em setores estratégicos do banco, visando facilitar a liberação de contratos de repasse para prefeituras aliadas.
  • Controle da imprensa: Determinação de suborno a jornalistas e radialistas para silenciar críticas ou atacar adversários.

Já Bebeto do Choró seria o operador estratégico, descrito como responsável por "girar" o dinheiro ilícito. Ele faria a distribuição de dinheiro em espécie e bens (como sacos de cimento) para eleitores.

Bebeto, diz a PF, teria controle de uma rede de empresas usadas para vencer licitações fraudulentas e lavar o dinheiro desviado.

Em um dos áudios capturados pela PF, Bebeto define sua atuação: "Você sabe que eu não tenho paixão não, sou empresário, sou investidor".

A PF cita que o grupo operava com um percentual fixo de desvio, chegando a cobrar 12% de comissão sobre emendas parlamentares. A investigação aponta que o esquema buscava a "captura" de prefeituras para garantir a perpetuação do poder e do fluxo financeiro ilícito.

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Os dois líderes foram indiciados por:

  • Organização criminosa;
  • Captação ilícita de voto;
  • Lavagem de dinheiro;
  • Falsidade ideológica eleitoral.

O que dizem as defesas

As defesas dos citados na reportagem divulgaram notas em que se defendem.

"Depois de um ano de uma ruidosa investigação, a Polícia Federal nada encontrou de relevante contra o deputado Júnior Mano. As conclusões do relatório final são exageradas, genéricas e sem provas. Júnior Mano não é ordenador de despesas, não participou de licitações e, portanto, não tem como controlar a aplicação final de recursos federais.

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O deputado reafirma, com firmeza, que não cometeu qualquer irregularidade. É lamentável o vazamento seletivo de informações sigilosas justamente num momento em que os partidos começam a definir as candidaturas para as eleições deste ano.

Esperamos que o inquérito aberto pela PF para apurar o vazamento de dados protegidos por sigilo apresente uma resposta clara contra o uso de informações processuais com fins políticos."

"Wesley Safadão não possui qualquer envolvimento político com as pessoas mencionadas. A troca de mensagens divulgada entre o deputado Júnior Mano e o artista diz respeito exclusivamente a um pedido de patrocínio encaminhado ao cantor, algo comum dentro do ambiente de eventos e entretenimento. Não houve, por parte de Wesley, qualquer participação em articulações políticas, apoio a iniciativas dessa natureza ou relação com decisões institucionais. O artista segue dedicado integralmente à sua carreira musical e aos seus projetos profissionais."

A defesa de Bebeto de Choró afirmou ao UOL que "não comenta estratégias relacionadas a processos em andamento, por entender que tais discussões devem se limitar ao âmbito judicial".

A coluna mandou mensagem, por meio das páginas do Instagram, aos dois irmãos de Safadão —Edim e Watila— para que comentassem suas citações no inquérito, mas não obteve retorno. O espaço segue aberto.

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